Carbon entra com pedido de recuperação extrajudicial
Carbon, que se apresenta como uma das maiores blindadoras de veículos civis do mundo, protocolou um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo. O plano alcança R$ 371,5 milhões em créditos quirografários de três empresas do grupo, C Blindados, Opera Glass e Vertco.
O pedido chega no auge do setor. Segundo a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin), o país blindou 18,8 mil veículos em 2019, 25,9 mil em 2022, 29,3 mil em 2023 e 34,4 mil em 2024. Em 2025 foram 42,8 mil, alta de 24,6% e novo recorde, com faturamento setorial de R$ 3,5 bilhões.
A frota blindada em circulação se aproxima de 400 mil carros, e a blindagem deixou de ser exclusividade do alto luxo. Segundo a petição, a demanda hoje é puxada por modelos entre R$ 150 mil e R$ 300 mil, e o mercado cresceu em média 25,4% ao ano entre 2020 e 2025.
Em seis anos, a demanda mais que dobrou, e a Carbon surfou a onda. A receita líquida saltou de R$ 465 milhões em 2024 para R$ 673 milhões em 2025. A empresa diz responder por 16% das blindagens do país, com mais de 6 mil unidades no ano passado. Faltou transformar volume em caixa.
O Ebitda de 2025 foi de R$ 41 milhões, margem de 6%. A dívida custa em média 22% ao ano e há R$ 139 milhões vencendo em 12 meses, ante geração de caixa de R$ 52 milhões, segundo a própria petição. O passivo sujeito ao plano equivale a nove vezes o Ebitda.
A explicação oficial cita a verticalização que demorou a dar retorno, a dívida cara e curta, o atraso na fábrica de vidros de Jarinu e a Selic alta. A petição anuncia três fatores e enumera quatro. Nenhum deles é o mercado, que nunca esteve tão aquecido.
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Jarinu é o retrato do problema. A planta consumiu R$ 80 milhões, estava prevista para maio de 2025 e só operou em abril de 2026, o que obrigou o grupo a bancar duas folhas e dois aluguéis. Hoje roda abaixo da metade da capacidade, e o galpão é alvo de ação de despejo por aluguel atrasado.
FIDCS expostos
A lista de credores mostra onde está o risco. Os dez maiores somam R$ 299 milhões, ou 80% do total. O Amadeus FIDC lidera com R$ 95,3 milhões (25,6%), seguido pelo Banco Digimais, com R$ 61,4 milhões em debêntures (16,5%), e pelo SSG FIDC, com R$ 38,4 milhões (10,3%).
Depois vêm Banco do Brasil (R$ 35,7 milhões), Bradesco (R$ 17,5 milhões), Santander e Porto Seguro (R$ 16,4 milhões cada), SB Crédito FIDC (R$ 8,3 milhões), Treviso FIDC (R$ 5 milhões) e um investidor pessoa física, com mútuo de R$ 4,6 milhões. Credores financeiros somam 85% do passivo.
Os FIDCs são o elo mais exposto. Sete fundos têm R$ 155 milhões a receber, 42% de toda a dívida. Amadeus e SSG concentram R$ 133,7 milhões, quase tudo em notas comerciais e CCBs que venceriam até abril de 2027. Para fundos desse porte, um único devedor desse tamanho pesa na cota.
A lista inclui ainda Daniele Múltiplo FIDC (R$ 3,7 milhões), Múltiplo FIDC (R$ 2,2 milhões) e Premium Recebíveis FIDC (R$ 2,1 milhões). Este último foi o primeiro a perder a paciência e pediu a falência da Carbon, processo que acabou definindo a vara onde agora corre a recuperação.
Para protocolar o pedido, o grupo reuniu adesões de 47,63% dos créditos, ou R$ 194,6 milhões, acima do terço exigido pela lei. Tem 90 dias para superar 50%. A pressa tem motivo. Ações de despejo ameaçam três imóveis essenciais, e a empresa pede ao juiz que as suspenda.
O plano promete cortar o valor da dívida, alongar prazos e abrir espaço para dinheiro novo. Para os FIDCs, o roteiro costuma ser deságio, carência e cotistas à espera. Para a Carbon, fica a lição de que blindar o carro do cliente é mais fácil do que blindar o próprio balanço.
Fonte: Capitalaberto




