Recuperação judicial de Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok escancara os gargalos do varejo

A piora das condições financeiras voltou a atingir grandes nomes do varejo brasileiro. Em um curto intervalo de tempo, Marabraz e Casas Bahia recorreram a mecanismos de proteção contra credores para tentar reorganizar suas finanças e preservar as operações.

O movimento ocorre em um setor pressionado por juros elevados, dificuldade de acesso a crédito, redução do consumo e problemas de capital de giro.

A Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, com dívidas de R$ 140,2 milhões. No dia seguinte, a Casas Bahia apresentou pedido semelhante, mas em uma escala muito maior: o passivo informado pela companhia chega a R$ 17,3 bilhões.

Os dois casos têm características diferentes. Na Marabraz, o grupo relaciona o agravamento da crise à ruptura de uma estrutura familiar e patrimonial que historicamente ajudava a sustentar suas operações de crédito. Na Casas Bahia, a empresa chega à recuperação judicial depois de sucessivos prejuízos, redução de estoques, dificuldades para obter financiamento e um forte impacto no balanço.

“O que une esses casos não é queda de venda, é custo de dinheiro, e os balanços mostram isso de forma quase didática. A Marabraz pediu recuperação num segmento que cresceu 7,5% em doze meses, porque perdeu o controle dos imóveis que davam garantia às linhas de crédito. A Casas Bahia teve receita subindo 1,6%, gerou 798 milhões de caixa livre e reduziu 3,8 bilhões de dívida líquida em um ano, e ainda assim fechou 298 lojas, quase 29% da rede, com patrimônio líquido negativo de 8,3 bilhões”, explicou Matheus Matos, sócio da MA7 Capital.

Boom de consumo não sustentou crescimento

Após um momento de euforia no começo do terceiro governo do presidente Luiz Inácio lula da Silva, as redes de varejo estão recebendo a conta das políticas expansionistas, que serviram para incentivar o consumo doméstico nas compras de eletrodomésticos como geladeiras, máquinas de lavar a televisões.

“Toda essa expansão do crédito trouxe sim uma melhora, trouxe um ânimo no primeiro na primeira parte [do governo]. Só que a realidade na economia sempre impera. O reflexo está hoje. O que que a gente vê? As maiores varejistas do Brasil quebradas com hiperalavancagem, endividadas, demitindo, fechando e entrando em recuperação judicial. A gente tem que culpar lá atrás, quando incentivaram o crédito irresponsável subsidiado pelo governo. Hoje a conta chegou”, ponderou Felipe Sant’Anna. especialista em investimentos do grupo Axia Investing.

Marabraz aponta perda de acesso a crédito

O pedido apresentado pela Marabraz reúne cinco empresas ligadas à operação e tramita na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Segundo a petição, o passivo sujeito à recuperação soma R$ 140,188 milhões.

O grupo sustenta que a dificuldade é principalmente financeira e de liquidez. A avaliação apresentada à Justiça é de que o negócio continua operacional, mas passou a ter problemas para obter recursos destinados ao financiamento do dia a dia, especialmente para capital de giro.

Durante décadas, segundo a empresa, imóveis comerciais, centros de distribuição e outros ativos pertencentes à holding patrimonial da família eram utilizados como garantias ou reforços em operações financeiras. Embora esses bens não estivessem diretamente no patrimônio das empresas operacionais, ajudavam a viabilizar crédito.

A companhia afirma que conflitos familiares e societários alteraram essa estrutura. A partir daí, bancos teriam passado a exigir novas garantias, reduzir limites, aumentar custos ou deixar de renovar determinadas linhas de financiamento.

Para a Marabraz, a redução do crédito agravou a falta de liquidez e criou dificuldades adicionais para manter o funcionamento da operação.

“Com a Selic em 14% por tempo prolongado, o juro come o ganho operacional antes de ele virar lucro, e no varejo de duráveis o aperto vem pelas duas pontas, porque encarece a dívida da empresa e ao mesmo tempo tira do cliente a capacidade de parcelar. O relatório da própria Casas Bahia cita o Banco Central mostrando que o serviço da dívida já compromete perto de 30% da renda das famílias. Por isso o que separa quem sobrevive de quem não sobrevive hoje não é vender mais, é o perfil de vencimento da dívida e o acesso a garantia”, afirmou Matos.

Pedido envolve cinco empresas

A recuperação judicial engloba Comercial de Móveis Jordanésia, S.V.C. Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis Prestadora de Serviços.

A defesa argumenta que as empresas possuem controle comum e, em grande parte, os mesmos sócios. A petição também cita mais de mil reclamações trabalhistas envolvendo mais de uma das sociedades como um dos motivos para que o processo seja conduzido de forma conjunta.

Uma das empresas incluídas no pedido, a Jordanésia, já havia tido a falência decretada em outro processo. A decisão, contudo, está suspensa por determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo.

A Marabraz também pediu medidas urgentes para evitar bloqueios de recursos e cobranças durante o período de proteção previsto na recuperação judicial. Entre os pedidos estão a continuidade de serviços essenciais, como energia, água, telefonia e sistemas de pagamento, além da preservação dos contratos relacionados aos imóveis utilizados pelas empresas.

O grupo informou ainda que não conseguiu apresentar inicialmente toda a documentação contábil exigida para o processo porque houve interrupção dos serviços da empresa responsável pelo sistema de registros financeiros. Relatórios gerenciais foram anexados ao pedido, enquanto a documentação oficial deverá ser apresentada posteriormente.

Casas Bahia chega à recuperação com dívida de R$ 17,3 bilhões

A situação da Casas Bahia é mais abrangente. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial na noite de domingo, na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, declarando passivos de R$ 17,3 bilhões e 19,4 mil credores quirografários, aqueles que não contam com garantias específicas.

A medida já era considerada provável depois que a empresa alertou, no mesmo dia, para uma incerteza relevante sobre sua continuidade operacional. O relatório financeiro também mencionava a possibilidade de adoção de uma recuperação judicial ou de uma nova negociação extrajudicial com credores.

A companhia vinha acumulando resultados negativos. Desde 2024, os balanços trimestrais permaneceram no vermelho, em um histórico que inclui 20 trimestres de prejuízo entre os 30 períodos posteriores à saída do controle do GPA, em 2019.

A dificuldade para obter crédito ganhou peso nos últimos meses. Segundo informações apresentadas pela companhia e avaliações de agentes do mercado, a menor disponibilidade de financiamento para compra de mercadorias afetou os estoques e, consequentemente, a oferta de produtos nas lojas.

GPA segue por uma rota diferente

O Grupo Pão de Açúcar (GPA) também enfrenta uma situação financeira delicada, mas adotou uma estratégia diferente das duas varejistas.

Em vez de recuperação judicial, o grupo recorreu a uma recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,57 bilhões em dívidas. O mecanismo permite que a companhia mantenha as operações enquanto estrutura um acordo com os credores, sem submeter toda a negociação ao processo judicial tradicional de recuperação.

A Justiça de São Paulo aceitou o plano em março. Posteriormente, o GPA informou ter concluído a renegociação com os credores, com adesão equivalente a 57,49% dos créditos abrangidos.

O acordo prevê redução superior a 50% das obrigações incluídas no plano ao longo do período de pagamento e aumento do prazo médio da dívida para 6,4 anos. Também está previsto um novo financiamento de até R$ 200 milhões e a reestruturação de até R$ 1,1 bilhão em debêntures conversíveis.

O grupo acumulava cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas e registrou prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões no quarto trimestre de 2025. No fim daquele ano, a companhia também enfrentava déficit e pressão sobre obrigações com vencimento próximo.

A crise do GPA vem sendo associada a uma combinação de fatores, como inflação de alimentos, juros elevados, redução do consumo, custos de reestruturação e fechamento de unidades com baixo desempenho.

Marisa melhora margens, mas resultado segue negativo Já a Marisa encerrou o segundo trimestre de 2026 com mudanças no balanço. Enquanto a operação mostrou melhora em margens e controle de despesas, o resultado final se manteve negativo.

A varejista registrou prejuízo líquido de R$ 68,4 milhões entre abril e junho, após lucrar R$ 2,1 milhões no mesmo período de 2025. O principal ponto de pressão veio das contas financeiras da companhia.

A dívida líquida da Marisa alcançou R$ 394,8 milhões no fim de junho. O valor representa um crescimento de 42,4% em relação a dezembro. A alta também elevou a alavancagem da varejista.

Receita do Grupo Toky, dono da Tok&Stok e Mobly, cai 37% O Grupo Toky, controlador das marcas Mobly e Tok&Stok, registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre de 2026, ante prejuízo de R$ 88,8 milhões no mesmo período do ano passado. O resultado veio pouco mais de dois meses depois de a holding pedir recuperação judicial, em 12 de maio, processamento deferido pela Justiça em 15 de junho.

A receita operacional líquida somou R$ 207,1 milhões no trimestre, queda de 37,3% em relação ao 2T25. Já o GMV consolidado, que mede o volume total transacionado pela Companhia, atingiu R$ 295,2 milhões, redução de 31,9% na mesma base de comparação.

O relatório da Administração aponta que o pedido de recuperação judicial afetou a confiança de fornecedores e parceiros comerciais no curto prazo, o que levou à interrupção do abastecimento e a rupturas de estoque no período. A falta de produtos alongou os prazos de entrega, reduziu a captação de novas vendas e elevou o volume de cancelamentos de pedidos.

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